Ortorexia: o vício de se tornar saudável
Por GABRIELLA SPAMPINATO DE OLIVEIRA ROSA as 19:27 - 16/02/2026 Saúde
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É comum ouvir que manter uma alimentação saudável, equilibrada e com uma escolha inteligente de ingredientes é essencial para garantir boa saúde, não é mesmo? Esse tipo de rotina ajuda a prevenir diversas doenças e manter a qualidade de vida. Mas, você sabia que o excesso de cuidado também pode ser prejudicial?
Ainda que manter uma boa alimentação seja fundamental para a saúde, o excesso de preocupação com o tema também pode trazer riscos e resultar no desenvolvimento da ortorexia.
Continue a leitura para saber mais sobre esse quadro e entender a melhor maneira de cuidar da sua saúde de forma equilibrada!
O que é ortorexia?
Ortorexia, também chamada de ortorexia nervosa, é o distúrbio caracterizado pela obsessão por comida saudável, em que a pessoa portadora desse quadro tem uma busca exagerada por alimentos naturais.
Esse comportamento inclui uma preocupação excessiva com a qualidade dos alimentos, a eliminação rigorosa de grupos alimentares da dieta e o medo constante de consumir algo “impuro” ou “não saudável”.
A ortorexia é um dos distúrbios alimentares menos conhecidos justamente por ser caracterizada como um comportamento alimentar que ainda não consta no Manual de Diagnósticos de Transtornos Mentais (DSM-5), mas vem sendo estudado e descrito em diferentes formas de manifestação.
Na prática, pessoas com ortorexia podem passar horas planejando suas refeições, evitando eventos sociais que envolvem comida e experimentando sentimentos de culpa ao desviarem de suas rígidas regras alimentares. Por exemplo, alguém pode recusar um jantar com amigos por temer que a comida não atenda aos seus padrões.
Qual a relação entre a ortorexia e vigorexia?
Ortorexia e vigorexia são distúrbios que compartilham a obsessão por ideais de saúde e forma física.
Enquanto a ortorexia é a fixação extrema em comer somente alimentos considerados saudáveis, a vigorexia, ou dismorfia muscular, envolve uma preocupação excessiva com o desenvolvimento muscular e a forma física. Ela é o principal motivador para a realização de exercícios compulsivos e uso de suplementos.
A principal semelhança entre eles reside na obsessão por alcançar um físico “perfeito”, seja focando na alimentação rigorosa, seja na prática exercícios de forma intensa.
Leia também: Exercícios em casa e suplementos alimentares
Ortorexia, anorexia e bulimia: o que elas têm em comum?
Todas elas são transtornos alimentares distintos, cada um com suas particularidades, mas que compartilham uma raiz comum profunda e diversos traços psicológicos, comportamentais e emocionais.
Embora o foco de cada um seja diferente, eles convergem em vários aspectos essenciais, como:
pensamentos obsessivos e rituais relacionados à comida;
necessidade de controle;
perfeccionismo e pensamento rígido (8 ou 80);
culpa e autopunição;
impacto negativo na saúde física e mental;
distorção da autoimagem e identidade.
Por isso, reconhecer as características únicas de cada transtorno, é essencial para evitar diagnósticos errados e garantir o suporte adequado para a sua saúde:
segundo o Manual MSD, a anorexia é caracterizada por uma restrição extrema de calorias e uma percepção distorcida do corpo;
já a bulimia, conforme definição do Manual MSD, envolve ciclos de compulsão alimentar seguidos por purgação;
por fim, a ortorexia, como visto anteriormente, foca na qualidade dos alimentos.
Outra informação importante é que a ortorexia pode ser combinada com outros quadros, como depressão, ansiedade e estresse, além dos distúrbios alimentares mais conhecidos.
Tipos de ortorexia
A busca por um estilo de vida saudável é cada vez mais valorizada, no entanto, a linha entre o cuidado com a alimentação e a obsessão pode tornar-se bem delicada.
Como vimos, embora ainda não seja oficialmente classificada como um distúrbio alimentar, a ortorexia apresenta um conjunto de características marcantes que a diferenciam de uma genuína preocupação com a saúde.
Mais do que “tipos” oficiais, podemos falar em “padrões” ou “perfis”de ortorexia, que se manifestam da seguinte forma:
Padrões baseados na crença ou filosofia alimentar
A obsessão pela alimentação “pura” muitas vezes se ancora em filosofias alimentares específicas, levadas a um extremo patológico. Alguns exemplos incluem:
Foco na “comida limpa” (clean eating): talvez a manifestação mais comum na atualidade. A pessoa se fixa em consumir apenas alimentos integrais, não processados, e livres de aditivos, conservantes, corantes ou qualquer ingrediente considerado “artificial”. A obsessão está em evitar toxinas e produtos químicos.
Foco no crudivorismo (raw foodism): a crença central é que cozinhar os alimentos acima de uma certa temperatura destrói suas enzimas naturais e nutrientes vitais. Pessoas com este perfil restringem sua dieta a frutas, vegetais, nozes e sementes crus, podendo levar a deficiências nutricionais significativas.
Foco no organicismo: a preocupação principal é consumir exclusivamente alimentos de origem orgânica, livres de pesticidas, herbicidas e fertilizantes sintéticos. A pessoa pode sentir extrema ansiedade ou repulsa ao ter que consumir um alimento que não seja certificado como orgânico.
Foco em restrições específicas (livre de): a pessoa elimina de forma radical e não justificada por diagnóstico médico (como doença celíaca ou alergia) múltiplos grupos alimentares, como glúten, laticínios, açúcar, carboidratos, soja ou gorduras, acreditando serem inerentemente prejudiciais à saúde.
Padrões baseados na motivação
As razões por trás da busca pela dieta perfeita também podem variar, revelando diferentes perfis motivacionais:
Ortorexia com foco na prevenção de doenças: a principal motivação é um medo avassalador de adoecer. A pessoa acredita que uma dieta perfeitamente “pura” é a única forma de prevenir doenças como câncer, diabetes ou problemas cardíacos. Qualquer desvio é visto como um risco iminente à sua saúde física.
Ortorexia com foco na pureza e superioridade moral: neste perfil, a alimentação saudável transcende a saúde física e se torna uma questão de virtude e identidade. A pessoa se sente moralmente superior por seguir uma dieta rigorosa e pode julgar ou se afastar daqueles que não compartilham de suas crenças alimentares. Comer “limpo” é um sinal de autodisciplina e pureza espiritual.
Ortorexia como mecanismo de controle: para algumas pessoas, a comida é uma das poucas áreas da vida sobre a qual sentem ter total controle. Em momentos de estresse, incerteza ou trauma, controlar rigidamente cada aspecto da alimentação pode proporcionar uma sensação de segurança, ordem e previsibilidade.
É importante notar que esses padrões podem se sobrepor. Por exemplo, uma pessoa pode seguir uma dieta “clean eating” (foco na filosofia) por um medo intenso de desenvolver uma doença (foco na motivação).
Em resumo, embora não existam tipos de ortorexia clinicamente definidos, a forma como o transtorno se manifesta pode variar muito, dependendo das regras alimentares específicas, das filosofias adotadas e das motivações psicológicas individuais.
Sintomas da ortorexia
Os sintomas da ortorexia variam muito, no entanto, ela pode ser desencadeada por uma combinação de fatores psicológicos, sociais e culturais:
Psicologicamente, pessoas com traços perfeccionistas ou com necessidade de controle podem ser mais suscetíveis ao desenvolvimento.
A ansiedade e o desejo de evitar doenças também são motivadores comuns.
Socialmente, a crescente valorização de estilos de vida saudáveis pode exercer pressão estética sobre as pessoas para aderirem a dietas rigorosas.
Culturalmente, a mídia desempenha um papel crucial ao promover padrões de beleza e saúde muitas vezes inatingíveis.
Pessoas com ortorexia frequentemente demonstram uma preocupação excessiva com a qualidade dos alimentos, comportamento rígido em relação à alimentação, isolamento social pela ansiedade de comer algo, entre outras situações.
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Quais as consequências da ortorexia?
Ainda que, no momento, não faça parte da lista oficial de transtornos alimentares, as consequências da ortorexia são diversas, principalmente porque esse distúrbio deixa a dieta muito reduzida.
Alimentos, vitaminas e minerais importantes para o funcionamento do organismo são excluídos, ocasionando deficiências nutricionais, como problemas de pele, anemia e até questões cardíacas. Fisicamente, essa obsessão pode levar à desnutrição, já que as restrições comprometem o sistema imunológico, aumentando a fadiga e causando dificuldades digestivas.
Falando sobre as consequências sociais e psicológicas, a ortorexia gera ansiedade intensa em relação à alimentação, que pode evoluir para um estado de solidão e depressão, pois as relações pessoais são frequentemente prejudicadas.
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Qual o melhor tratamento para a ortorexia? Existe prevenção?
Para o tratamento da ortorexia, é necessário contar com uma equipe multidisciplinar, composta por profissionais da medicina, psicologia e outras especialidades. Dessa forma, é possível direcionar cada caso, conforme o grau de seriedade, para haver uma melhora significativa da saúde com o tratamento mais adequado.
Já para conseguir realizar a prevenção da ortorexia, é essencial cultivar uma relação equilibrada com a comida e o corpo e adotar algumas práticas importantes:
Abandone o “terrorismo nutricional”: evite classificar alimentos como “bons” ou “maus”. O segredo está na variedade e moderação, lembrando que a comida também é fonte de prazer e socialização.
Foque na saúde, não na estética: valorize seu corpo pelo que ele pode fazer (sua energia e funcionalidade) e não somente pela aparência ou pelo peso na balança.
Tenha um olhar crítico com a mídia: questione dietas extremamente restritivas promovidas por pessoas influenciadoras. Siga profissionais de saúde especialistas e filtre o conteúdo que gera culpa ou ansiedade alimentar.
Seja flexível e evite a culpa: uma alimentação saudável é definida pela rotina, não pela exceção. Comer algo fora do planejado não invalida seus hábitos e não deve ser motivo para culpa.
Ouça seu corpo: aprenda a reconhecer seus sinais de fome e saciedade, praticando uma alimentação mais consciente e intuitiva.
Busque ajuda: se a preocupação com a comida se tornar uma obsessão que causa sofrimento ou isolamento, é fundamental procurar ajuda psicológica e nutricional.
A jornada em busca de uma vida saudável é muito importante, mas pode se transformar em ortorexia quando a busca pela “pureza” alimentar se torna uma fonte de angústia, isolamento e obsessão.
O verdadeiro bem-estar reside na construção de uma relação pacífica e equilibrada com a alimentação, onde a nutrição anda de mãos dadas com a saúde mental e o prazer social.
Reconhecer a linha tênue entre o cuidado e a compulsão é o primeiro passo para garantir que a alimentação seja uma aliada, e não uma prisão. Caso note algum sinal de alerta na sua relação com a comida ou com o corpo, procure orientação profissional.
É por isso que, para além da alimentação, seu bem-estar completo é a nossa prioridade. Nas Farmácias Nissei, você encontra diversas opções de alimentos saudáveis, vitaminas e minerais para complementar sua dieta, além de uma equipe farmacêutica sempre disponível para te ajudar.
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